domingo, 29 de janeiro de 2017

O Cesteiro

Ele fazia cestas de vime.
Era um prazer recente. Era uma habilidade descoberta tardiamente. Não era tradição na família, não era um conhecimento transmitido ou incutido desde tenra idade, tampouco algo que almejasse desde sempre. Ele tinha querido ser bombeiro, ser polícia, ser astronauta. Não se tornou em nada disto. Estes eram os sonhos de petiz, apenas. Estudou, brincou, namorou, fez amizades, e cresceu. E continuou sem saber o que era um cesteiro. Ele só sabia que existiam cestas.
Um dia conheceu um praticante do ofício. Um não muito bom, mediano, mas incomparavelmente melhor que ele, que nada percebia da arte. Meio a brincar quis experimentar percebendo quase no imediato que até tinha habilidade. Fez o seu primeiro entrelaçado, depois o segundo, e o terceiro... e os vimes aos poucos deixaram de ficar lassos. A cada tentativa os cruzados ficavam cada vez mais unidos, mais bonitos, com maior e melhor simetria. O seu objectivo era fazer uma cesta perfeita. E conseguiu. Fez a primeira, a segunda, a terceira. Fez muitas. Dedicou-se. Suplantou o mestre. Tornou-se um cesteiro.
Ele vivia a sua vida, e fazia cestas de vime.

Ela era empregada numa loja. Ela sorria, sorria o dia inteiro, ela cumpria, ela era mais uma como tantas que trabalhava, e gostava. E vivia, e convivia, e estava lá para todos. Era assim, era ela. E sorria. Mas não queria ser empregada numa loja. A cada sorriso viajava,  a cada olhar aprendia, a cada frase imaginava, a cada bom dia sonhava. Ela era uma viajante. De alma, de criação, por destino, por sina. Os viajantes adaptam-se, os viajantes acumulam, os viajantes abraçam o mundo. E ela não podia negar quem era. Ela não tinha sido sempre empregada numa loja, ela havia já sido muitas outras coisas, e outras tantas lhe estavam ainda reservadas. Ela precisava continuar a viajar.

Quando se conheceram ele fazia cestas de vime.
Ela sabia o que era um cesteiro, ela sabia o que eram cestas, mas nunca tinha olhado verdadeiramente para nenhuma. Analiticamente reconhecia-lhes a importância outrora perdida, a sua história que se havia tornado numa simples arte decorativa. Mas não apreciava cestas. Nunca tinha comprado nenhuma, nem feito nenhuma com as suas próprias mãos. Ela comia, mas não cozinhava. Um viajante bebe o que lhe dão e experimenta o que não conhece. Adapta-se mas não se transforma.

E ele fazia cestas de vime. Mas das suas mãos já lhe não saia um cruzado, somente. Ele dominava o enrolado, o encanado e o torcido. Ele era um bom cesteiro. Ele trabalhou a técnica, ele tornou os dedos ágeis, ele diferenciou-se. Ele criou. Ele trabalhou o vime, a palha, o bambu, o salgueiro, a cerejeira. E continuava a sua demanda, a sua jornada. Ele queria conhecer tudo, trabalhar tudo, apreender tudo! A sua última cesta teria que ser melhor que a anterior.

Ela não entendia a técnica, ela não via os dedos dele quando entrelaçava, ela não distinguia o cheiro dos materiais. Ela jamais seria um cesteiro. Ela não queria ser um cesteiro. Ela queria viajar. E viajou em cada cesta por ela manufacturada. Estudou as suas histórias, o seu passado. Isso era algo que ela entendia. Era algo que percebia, algo que tinha capacidade para fazer. Perguntou, observou, estudou. E viajou. Ela visitou povos autóctones na Austrália e em Nantucket, viveu com indígenas, guerreou com os Imortais persas, e apaixonou-se pela beleza das Shlichah.
Enquanto ele fazia cestas de vime.

Mas um viajante precisa de se alimentar. Um viajante é um nómada. Um viajante só se fixa num solo tão fértil que lhe dê de beber e de comer para a eternidade. E solos-âncora são raros. Talvez até nem existam. Ela esperava encontrá-lo. Por esta altura, já não era empregada numa loja. Ela continuava a acreditar. Ela continuava a sonhar, ela continuava a imaginar. Ela voltaria a viajar.

E ele faria cestas de vime.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Evoé!

Tu que do Sol nascente vieste
(o mais excêntrico cortejo)
num ofuscante exotismo,
contigo loucura trouxeste!
Não vejo o que sinto
e sentindo o que não vejo,
negro o fresco que pinto.
Bem perto o abismo...
Deixa-me chegar a ti
deixa-me cantar-te
os teus tigres domar
rodopiar num cântico demente
do teu puro sangue provar
e inebriada, pensar que morri.
Deixa-me dançar-te
adorar-te somente!
Sonhar em letargia
não ver o que existe, mas o que é
eternizar um sentir dormente
legar a outrém a fé
no amanhã que seria...
Abandonar-me ao excesso
ao vazio que de volta peço
esventrar-me em histeria.
Evoé!

domingo, 28 de agosto de 2016

onde estou...?

Onde estou?
não no espírito,
mas no espaço.
... sim, que no pensamento
perco-me nas letras que sou
e nas palavras que faço.
não o som em si,
sim o seu significado...
simples ideias de momento
o que sentirei, sinto ou senti
remendos de algo emprestado!
algo que no tempo parou
estagnação? imobilidade?
é o que trava o caminho que traço.
e para onde é que as palavras vão?
e eu,... onde estou?
e voltamos outra vez ao espaço.
o barulho, as vozes, o ruído,
o fumo cinzento
reconfortante obscuridade
as conversas cruzadas,
as gargalhadas soltadas
e mais uma vez as palavras,
palavras sem sentido.
não sou daqui
nem aqui me enquadro,
mas aqui pertenço
pois mesmo desajustada
é fora do Eu que eu penso 
e sendo aqui que eu sou
será que é onde,
onde realmente eu estou?

terça-feira, 26 de abril de 2016

Peso

Eu nao quero ser cansada
Sinto-me pesada
O meu passo pesa toneladas
Quero-te a ti Antigo 
Não lá, além, longe. Aqui, comigo.
A tua mão e a minha. Dadas.
O que é meu não me chega mais
Quero meios, não finais.

Vejo-te Ontem, à frente.
Lucidez aparente.
O saber que tens. Ou tinhas.
Vejo-te Velho, vejo-te meu.
Mas o conhecimento é teu
E as grilhetas são minhas.
E que mais me deste? Nada.
Eu não quero ser cansada.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Relações Estivais XV #5 - quando o pânico se instala




cenários de terror em tempo (e espaço) de férias.

Aquele momento em que a palavra "fim" se nos afigura defronte dos globos oculares.
Como é que três letrinhas conseguem comportar em si tamanho horror?!
E no decorrer destes últimos dias já li "fim" quatro vezes. A gravidade é que o não vou ler uma quinta.

Tenho que me render às evidências. E conformar-me. Resta-me a Caras.



cenários de terror em tempo (e espaço) de férias. parte II.

a televisão pifou.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Relações Estivais XV #4

3º dia de praia.

Agora sim, apanhei uma corzinha. O branco lixívia abandonou-me de vez. Tão pouco o sarapintado dos primeiros dias, do estilo lagosta com vitiligo.
De momento encontro-me com uma coloração uniforme. Posso dizer que já tenho um tomzinho.

Um tomzinho algures entre uma maçã caramelizada e um lagostim. Cozido. E reluzente.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Relações Estivais XV #3 - Momentos Matinais


Hoje, ao acompanhar a mãe no seu pequeno almoço no "café de sempre" (e quando digo acompanhar refiro-me apenas à presença física, já que tomo o meu pequeno almoço saudável em casa) reencontro uma pequena que trabalha no supra citado estabelecimento.

Conheço-a há já alguns anos. recordo-me da moça que é de origem romena ou croata, talvez polaca ou eslovena,... enfim, oriunda da Europa de Leste, quando para ali foi trabalhar, que para além do "bom dia" e "obrigada" pouco mais conseguia articular. A restante comunicação era estabelecida através de gestos. Mas muito simpática, entre dois sorrisos lá ia dando conta do recado! A menina (que tem nome, porém impronunciável - provavelmente é moldava!) de ano para ano ia melhorando o seu português, cada vez com mais e variados vocábulos e com um crescendo de conectores no seu discurso! 

Qual não é o meu espanto quando esta manhã sou recebida com um entusiástico "olá! então, tudo bem? 'tá gira! e gordinha!" 

Claramente que aprendizagem de uma língua é um processo muito mais complexo do que à primeira vista possa parecer!