terça-feira, 22 de agosto de 2017

breve reflexão sobre o exercício de auto controlo ou o episódio de David e Golias adaptado


Ora bem, como já era mais que expectável, desde que as minhas férias começaram só tenho feito disparates no que toca à minha dieta alimentar. Começou por um "é só hoje", que se transformou num "vá, uma vez por semana", que acabou por derivar num "uma vez por dia", e por este andar não sei onde isto vai parar. Ou por outra, sei: vai terminar comigo no consultório do nutricionista a dizer que não posso respirar porque o ar engorda!

Posto isto, de uma coisa faço questão: bolas não! Esses infames doces do Inferno que vulgarmente se dizem de Berlin não me levam a melhor! Ainda que seja um autêntico suplício permanecer na praia enquanto o "booooolas! bolinhas! com creme, sem creme! booooolas! bolinhas!" apregoados por aqueles filisteus que se passeiam no areal ecoam nos meus pobres ouvidos!
Mas não cederei! Aqueles Golias redondinhos e doirados acabarão esmagados pela minha hercúlea força de vontade!

quarta-feira, 21 de junho de 2017

ser - se Eu - episódios da vida quotidiana #2


     (Entenda-se que a descrição que se segue, elucidativa da noite transacta, peca pela ausência de imagens, as quais serviriam de suporte à narrativa abaixo. É no entanto compreensível que o bom senso e educação que me caracterizam me tenham impossibilitado de “flashar” todos os personagens e situações que ilustraram a dita noite.)

     Inicia-se esta com um convite de uma amiga (sine nomine, que ninguém tem nada que ficar a saber os locais frequentados pelos meus amigos, uma vez que há uma reputação a manter e já chega eu estar a deixar a minha à razão de juros) para irmos a um bar assistir a um concerto ao vivo de um guitarrista seu conhecido, o qual far-se-ia acompanhar por um saxofonista. De relevar que ambos os senhores são profissionais, competentes e bastante audíveis (até para quem não gosta de Blues)!

     O périplo inicia-se rumo à Mouraria. Chegada e descoberta do bar. A procura de lugar para estacionar entre um contentor do lixo e um sem-abrigo, vielas de sentido único e becos sem saída revelou-se inglória, e resignamo-nos com um lugarzito junto ao Martim Moniz. E como regressamos? De táxi, claro está! O senhor taxista ficou verde quando percebeu que o valor da viagem prefazia um total de 3.90€ - por outas palavras, a bandeirada! Mas é óbvio que eu não iria trepar Mouraria acima do alto das minhas sandálias (lindas, porém pouco adaptáveis à calçada portuguesa)!
     Chegamos. Sítio giro, com luz, onde pairava uma nuvem de fumo. Respiro de alívio: era um bar de fumadores! Cumprimentamos os músicos e sentamo-nos. Vinte minutos volvidos e compreendemos que não existia serviço de mesa. Dirijo-me então ao balcão e faço o meu pedido, bem como o da minha amiga, ao barman (que se tivesse o hábito de tomar banho seria até um moço giro), que lá acedeu a levar-nos duas Colas Zero à mesa.
     Se mote houvesse para a noite, o mesmo teria sido dado pela minha amiga (e como começo a ficar ligeiramente aborrecida por repetir constantemente “amiga”, chamemos-lhe “Ana”, já que existem muitas e continuamos a mantê-la no anonimato), e cito: “ Essas calças com um pavão que trazes vestidas são um susto!” (Facto com o qual discordo totalmente, uma vez que considero as minhas calças giríssimas e para lá de fashion!)
     Começamo-nos paulatinamente a aperceber que o ambiente que nos circunscreve é, na ausência de melhor vocábulo, alternativo!... no mau sentido.
     Os músicos tocavam acompanhados pelos copos, pés e cadeiras que na mesa do lado se partiam, batiam no chão e caíam, respectivamente. Os causadores do distúrbio eram franceses.
E eis que alguém portador de um fato de treino (que equivocado, coitado, não percebeu que se encontrava num bar e não num ginásio) entra na casa de banho... das senhoras. Ao sair traz vestidos uns calções de tom salmão, um blusão com listas coloridas e umas sapatilhas de pano azuis. Alegremente cumprimenta um outro de bigodinho ridículo. Por esta altura a “Ana” já chorava, tal era o nevoeiro!
     Na pista (que não existia) duas pequenas vestidas com as roupas das avós (indumentária mais que apropriada ao sítio em questão), dançavam ao som de qualquer coisa que não a melodia que saía do saxofone e da guitarra. Um senhor idoso, sentado na mesa do canto, agita o pezinho. O barulho na mesa vizinha torna-se ensurdecedor quando os rapazes (que afinal são espanhóis!) resolvem improvisar letras para a música.
     Chega o intervalo e, aproveitando o momento em que o barman passa ao nosso lado para cumprimentar um moço de ar alienado, pedimos mais uma Cola Zero. Temos agora a certeza que o álcool nos torna bem mais tolerantes!
     O espetáculo recomeça, assim como o pezinho do senhor idoso. Na mesa contígua o entusiasmo cresce. Pedem-me emprestado o isqueiro e, ao ser presenteada com um "cheers darlin’" de agradecimento por parte do tipo com o bigodinho ridículo, que (descobrimos entretanto) é amigo dos outros, reconsideramos: afinal são ingleses!
     Aparece agora uma palmeira. Bom, na realidade era uma cabeça com rastas, mas ao longe a confusão é justificada.
Momentos depois os músicos são interrompidos por um trompetista (que vinha acompanhado do “Palmeira”, com umas sandálias todas catitas (e de fazer inveja a qualquer contemporâneo de Cristo), que acaba por acompanhar o concerto até ao terminus deste, juntamente com os músicos contratados. O trompetista (que para amador era bastante afinado, pelo menos eu, que não percebo nada de trompetes, achei que sim) era amigo,... conhecido..., bom, se calhar nunca se tinham visto antes mas pareceu-me compincha de um outro pequeno que não fora os All Star de ganga e a gravata verde, assemelhar-se-ia bastante a um cangalheiro, mas que, e segundo o próprio, na ausência de conhecimentos musicais, “tocava corações”.
     Ouve-se um latido. Olho imediatamente para a mesa do lado. Não me levem a mal, mas quer dizer, no meio daquela Torre de Babel infernal era muito plausível que alguém se tivesse lembrado de reproduzir a linguagem canina! Mas não. Um cão d’água preto salta da mesa do canto. (Fantástico, os animais também podem entrar!) Era com certeza da estima de algum dos amigos do alienado que, familiarizados com o bichano, o iam afagando carinhosamente.
     Umas moças, com uns cortinados amarrados em torno de si mesmas, dirigem-se para junto nos nosso vizinhos e uma delas é a feliz contemplada para dar um pezinho de dança com o cangalheiro da gravata verde. Tivemos o privilégio de assistir a algo absolutamente inolvidável. Um misto de Pulp Fiction, com folclore tradicional português, e juro que tive ainda uns vislumbres da célebre corrida do Tom Sawyer! A “Ana” é abalroada uma e outra vez, acabando por se ver forçada a mudar de cadeira.
     Junta-se um pianista à festa. Deduzo que tenha entrado no bar acompanhado pelo piano (que eu não vi à chegada). E melhor será não me vou alongar em pensamentos acerca desta situação. 
     O alienado dança na cadeira, de olhos fechados e com um sorriso no rosto, quando é interpelado pelo idoso do pezinho – que imaginem só?! É o seu progenitor! Chegamos à inevitável conclusão que esta gente se conhece toda, e nós é que estamos ali a mais.
     A música termina, mas o espectáculo não. Aparecem mais dois voluntários: um com uma gaita de foles e outro com uma pandeireta. Uma senhora adormece encostada à parede, mesmo junto à coluna de som. O ambiente está ao rubro e eu só penso que já vi concertos do Kusturica bem mais pacatos. 
     Precisamos urgentemente de sair. Pagamos e vamos de boleia até ao local onde havíamos estacionado o meu Ovinho.

     Conclusão da história: as minhas calças com um pavão foram o outfit mais sóbrio que entrou naquele bar ontem à noite!

domingo, 29 de janeiro de 2017

O Cesteiro

Ele fazia cestas de vime.
Era um prazer recente. Era uma habilidade descoberta tardiamente. Não era tradição na família, não era um conhecimento transmitido ou incutido desde tenra idade, tampouco algo que almejasse desde sempre. Ele tinha querido ser bombeiro, ser polícia, ser astronauta. Não se tornou em nada disto. Estes eram os sonhos de petiz, apenas. Estudou, brincou, namorou, fez amizades, e cresceu. E continuou sem saber o que era um cesteiro. Ele só sabia que existiam cestas.
Um dia conheceu um praticante do ofício. Um não muito bom, mediano, mas incomparavelmente melhor que ele, que nada percebia da arte. Meio a brincar quis experimentar percebendo quase no imediato que até tinha habilidade. Fez o seu primeiro entrelaçado, depois o segundo, e o terceiro... e os vimes aos poucos deixaram de ficar lassos. A cada tentativa os cruzados ficavam cada vez mais unidos, mais bonitos, com maior e melhor simetria. O seu objectivo era fazer uma cesta perfeita. E conseguiu. Fez a primeira, a segunda, a terceira. Fez muitas. Dedicou-se. Suplantou o mestre. Tornou-se um cesteiro.
Ele vivia a sua vida, e fazia cestas de vime.

Ela era empregada numa loja. Ela sorria, sorria o dia inteiro, ela cumpria, ela era mais uma como tantas que trabalhava, e gostava. E vivia, e convivia, e estava lá para todos. Era assim, era ela. E sorria. Mas não queria ser empregada numa loja. A cada sorriso viajava,  a cada olhar aprendia, a cada frase imaginava, a cada bom dia sonhava. Ela era uma viajante. De alma, de criação, por destino, por sina. Os viajantes adaptam-se, os viajantes acumulam, os viajantes abraçam o mundo. E ela não podia negar quem era. Ela não tinha sido sempre empregada numa loja, ela havia já sido muitas outras coisas, e outras tantas lhe estavam ainda reservadas. Ela precisava continuar a viajar.

Quando se conheceram ele fazia cestas de vime.
Ela sabia o que era um cesteiro, ela sabia o que eram cestas, mas nunca tinha olhado verdadeiramente para nenhuma. Analiticamente reconhecia-lhes a importância outrora perdida, a sua história que se havia tornado numa simples arte decorativa. Mas não apreciava cestas. Nunca tinha comprado nenhuma, nem feito nenhuma com as suas próprias mãos. Ela comia, mas não cozinhava. Um viajante bebe o que lhe dão e experimenta o que não conhece. Adapta-se mas não se transforma.

E ele fazia cestas de vime. Mas das suas mãos já lhe não saia um cruzado, somente. Ele dominava o enrolado, o encanado e o torcido. Ele era um bom cesteiro. Ele trabalhou a técnica, ele tornou os dedos ágeis, ele diferenciou-se. Ele criou. Ele trabalhou o vime, a palha, o bambu, o salgueiro, a cerejeira. E continuava a sua demanda, a sua jornada. Ele queria conhecer tudo, trabalhar tudo, apreender tudo! A sua última cesta teria que ser melhor que a anterior.

Ela não entendia a técnica, ela não via os dedos dele quando entrelaçava, ela não distinguia o cheiro dos materiais. Ela jamais seria um cesteiro. Ela não queria ser um cesteiro. Ela queria viajar. E viajou em cada cesta por ela manufacturada. Estudou as suas histórias, o seu passado. Isso era algo que ela entendia. Era algo que percebia, algo que tinha capacidade para fazer. Perguntou, observou, estudou. E viajou. Ela visitou povos autóctones na Austrália e em Nantucket, viveu com indígenas, guerreou com os Imortais persas, e apaixonou-se pela beleza das Shlichah.
Enquanto ele fazia cestas de vime.

Mas um viajante precisa de se alimentar. Um viajante é um nómada. Um viajante só se fixa num solo tão fértil que lhe dê de beber e de comer para a eternidade. E solos-âncora são raros. Talvez até nem existam. Ela esperava encontrá-lo. Por esta altura, já não era empregada numa loja. Ela continuava a acreditar. Ela continuava a sonhar, ela continuava a imaginar. Ela voltaria a viajar.

E ele faria cestas de vime.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Evoé!

Tu que do Sol nascente vieste
(o mais excêntrico cortejo)
num ofuscante exotismo,
contigo loucura trouxeste!
Não vejo o que sinto
e sentindo o que não vejo,
negro o fresco que pinto.
Bem perto o abismo...
Deixa-me chegar a ti
deixa-me cantar-te
os teus tigres domar
rodopiar num cântico demente
do teu puro sangue provar
e inebriada, pensar que morri.
Deixa-me dançar-te
adorar-te somente!
Sonhar em letargia
não ver o que existe, mas o que é
eternizar um sentir dormente
legar a outrém a fé
no amanhã que seria...
Abandonar-me ao excesso
ao vazio que de volta peço
esventrar-me em histeria.
Evoé!

domingo, 28 de agosto de 2016

onde estou...?

Onde estou?
não no espírito,
mas no espaço.
... sim, que no pensamento
perco-me nas letras que sou
e nas palavras que faço.
não o som em si,
sim o seu significado...
simples ideias de momento
o que sentirei, sinto ou senti
remendos de algo emprestado!
algo que no tempo parou
estagnação? imobilidade?
é o que trava o caminho que traço.
e para onde é que as palavras vão?
e eu,... onde estou?
e voltamos outra vez ao espaço.
o barulho, as vozes, o ruído,
o fumo cinzento
reconfortante obscuridade
as conversas cruzadas,
as gargalhadas soltadas
e mais uma vez as palavras,
palavras sem sentido.
não sou daqui
nem aqui me enquadro,
mas aqui pertenço
pois mesmo desajustada
é fora do Eu que eu penso 
e sendo aqui que eu sou
será que é onde,
onde realmente eu estou?

terça-feira, 26 de abril de 2016

Peso

Eu nao quero ser cansada
Sinto-me pesada
O meu passo pesa toneladas
Quero-te a ti Antigo 
Não lá, além, longe. Aqui, comigo.
A tua mão e a minha. Dadas.
O que é meu não me chega mais
Quero meios, não finais.

Vejo-te Ontem, à frente.
Lucidez aparente.
O saber que tens. Ou tinhas.
Vejo-te Velho, vejo-te meu.
Mas o conhecimento é teu
E as grilhetas são minhas.
E que mais me deste? Nada.
Eu não quero ser cansada.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Relações Estivais XV #5 - quando o pânico se instala




cenários de terror em tempo (e espaço) de férias.

Aquele momento em que a palavra "fim" se nos afigura defronte dos globos oculares.
Como é que três letrinhas conseguem comportar em si tamanho horror?!
E no decorrer destes últimos dias já li "fim" quatro vezes. A gravidade é que o não vou ler uma quinta.

Tenho que me render às evidências. E conformar-me. Resta-me a Caras.



cenários de terror em tempo (e espaço) de férias. parte II.

a televisão pifou.